Capitão América: Guerra Civil – uma resenha emocional

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Como um filme pode nos comover tanto, desde o anúncio até a apoteose na sessão de cinema? O universo que a Marvel está criando é tão externo quanto interno

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Filmes fazem muita coisa com a gente, a vida toda – pelo menos para quem se deixar levar, mesmo que não de corpo e alma, pelos encantos da sétima arte. Marcam momentos das nossas vidas, contam um pouco da história delas – da nossa história -, tornam-se referências de certas épocas e até criam em nós emoções novas, ou pelo menos nos faz descobrir que elas existiam lá dentro.

Isso tudo, claro, depende da destreza de roteiristas, diretores, atores e toda a equipe (hoje absolutamente gigantesca em se tratando de blockbusters) que trabalha para entregar, ao mesmo tempo, obras de arte para a apreciação do público massificado e produtos rentáveis, verdadeiros empreendimentos, imensos, as chamadas “franquias”.

As peças que a Marvel vem mostrando nas telonas desde 2008, quando se lançou como estúdio, com o filme Homem de Ferro, são um incrível exemplo do que é construir não só um, mas dois universos inteiros – um externo e outro interno. O externo é a parte física da questão, a que gera a grana, as receitas estrondosas de que sempre ouvimos falar. Mas esse lado, me parece, tem ficado em segundo plano no comentário geral, pois o aspecto interno tem falado mais alto ao coração de quem vai ao cinema para consumir blockbusters escritos e filmados com base em personagens de histórias em quadrinhos criados ainda no longínquo século XX.

O ponto mais alto do Universo Marvel até aqui

Capitão América: Guerra Civil é, no meu coração, a culminância dessa construção, que veio me envolvendo de uma forma muito próxima, íntima, desde Homem de Ferro. Menos por conta das estratégias de marketing e mais por causa da forma como os personagens são apresentados na narrativa – densos, multifacetados, que guardam camadas psicológicas ainda inexploradas, das quais só temos às vezes pequenos relances.

Quem é nerd como eu, claro, vai ser fisgado por esse tipo de filme pelos elementos de ficção científica, os poderes, a tecnologia absurda, as lutas e os efeitos especiais. Mas depois que mordemos essa isca mais fácil, somos presenteados com um banquete maravilhoso, carnudo, bem temperado de elementos narrativos que só a Marvel tem sabido servir aos ávidos cinéfilos, HQfilos ou nem um, nem outro: apenas gente que gosta de ir ao cinema para se divertir.

Joe Russo, que dirigiu o filme com seu irmão, Anthony, falou à imprensa, antes do lançamento, que Guerra Civil era uma história de amor. E é mesmo, até em níveis além daquele a que se referiu quando declarou isso: o amor fraternal entre Steve Rogers, o Capitão América, e Bucky Barnes, o Soldado Invernal. Esse é o amor central do filme, mas há outros amores envolvidos e que nos envolvem igualmente, como o amor dos Vingadores pelo que fazem ao defender o mundo de terríveis ameaças; o amor que o Capitão começa a ter pelo mundo moderno, algo que veio crescendo nas instâncias anteriores de filmes do herói; o amor conturbado entre ele e Tony Stark, o Homem de Ferro, que vimos começar a dar mostras de desgaste em Vingadores: Era de Ultron.

Um enredo emotivo

Enfim, muitos amores e muitas dores também. A Marvel fez com que nos apaixonássemos aos poucos por muitos desses heróis porque os atores que os interpretam exalam um carisma sem igual. Alguns ainda estão chegando lá, mas já foi uma grata surpresa ver a versão divertida de Tom Holland para o Homem-Aranha, o que deixa um gostinho de quero mais na boca, algo que será satisfeito quando o filme solo vier, em breve, agora só da Marvel, sem a Sony para interferir com outros interesses que não o de entregar um bom personagem de HQ para a tela grande.

popsugar.com
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Voltando ao assunto, a dor vem quando você vê que todo esse amor pode se quebrar não só por visões diferentes de mundo, mas principalmente pelo que sentem esses heróis em relação ao seu dever – olha o sentimento aí de novo -, e isso diverge entre eles, mas não deixa de ser também o que os uniu, em princípio. E são essas relações entre eles, como se sentem em relação a eles mesmos e aos outros que resultam em um filme tão mais interessante que um mero confronto de pessoas com poderes.

Os semblantes tanto de Steve Rogers quanto de Tony Stark, os antagonistas principais, são de preocupação, praticamente o filme todo, com seu futuro, o do mundo e das pessoas que amam. Os fantasmas que rondam o trabalho de proteger a humanidade vêm com tudo e a interpretação dos atores Chris Evans e Robert Downey Jr., impecáveis (eles nasceram para os papéis), deixa isso transparecer sem que pronunciem uma palavra. Os heróis que ficam de um lado ou de outro da questão do tratado, que enquadra os super-heróis na condição de agentes governamentais, com hora e lugar para agir, para sair e voltar, para ir e vir, acabam se contagiando pelo estado emocional de ambos e isso os inflama para a luta. Eles embarcam em uma viagem interna junto com seus respectivos líderes, o que estoura externamente em um embate para valer: Capitão é pela liberdade de movimento dos super-heróis, independência para a ação, aceitando, finalmente, como adulto, que há consequências possivelmente ruins ao se exercer o bem; Homem de Ferro tem culpa demais no cartório e esqueletos demais no armário para aceitar mais consequências, qualquer que seja, e não quer que mais sangue seja derramado em seu nome, nem no de nenhum de seus “colegas”.

screenrant.com
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O miolo

O confronto dos super-heróis, que já teve trechos exibidos à exaustão em trailers e pequenos vídeos que circulam pela internet, é uma das coisas mais bem pensadas, executadas e editadas da história do cinema – de novo, na humilde opinião desde que vos fala com o coração. Nenhum personagem fica sem brilhar nessa confusão e, aliás, isso acontece o filme todo, com todo mundo ganhando seu lugar ao sol, mesmo sendo um filme que tem como foco Capitão e Bucky. O Bucky, por sua vez, vira o saco de pancadas do incrível Pantera Negra em diversas ocasiões, por razões bem pessoais, e o personagem africano também nos deixa querendo muito saber o que vai rolar em seu filme solo.

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A participação do Homem-Aranha na parada toda é digna de nota, divertida e engraçada, mas vê-se claramente que é um “treino” desse super-herói para que ingresse posteriormente com tudo no MCU (Marvel Cinematic Universe). A participação do Falcão, inclusive com falas cômicas que quebram o gelo e nos fazem rir nos momentos certos, é crucial como braço direito de Steve. É um personagem que recebeu muito carinho desde Capitão América: Soldado Invernal, e cresceu demais, com bela atuação de Anthony Mackie.

É uma das mais longas cenas de ação de super-heróis, com o bônus de ser exclusivamente protagonizada por super-heróis fazendo o que sabem fazer melhor: arrebentar! Mais um aspecto emocional do filme: fui assistir com meu filho, de quase 4 anos, e o que ele falou no meio da batalha entre aqueles muitos de seus ídolos me desconcertou, mas logo me fez perceber o que eu mesmo estava sentindo: “Papai… tô arrepiado!” Ao que eu precisei responder, assim que parei para notar meu estado interno: “Eu também!”

Desfecho e conclusão: nada em preto-e-branco

Eu queria muito dizer que Capitão América: Guerra Civil é um filmaço que independe de você ser fã ou já ter assistido outros filmes das franquias Marvel. Mas a verdade é que ele só ganha seu efeito apoteótico se o espectador acompanhou pelo menos alguma das películas anteriores, principalmente as do próprio Capitão e dos Vingadores. Não quero dizer também que não seja recomendado a quem nunca viu nenhum desses. Um baita filme de qualquer forma e que talvez faça não-fãs irem atrás de recuperar o tempo perdido e assistir aos anteriores no Netflix ou outra mídia.

As chamadas nas redes sociais e propagandas sugerem que você “escolha um lado”, de Capitão América ou Homem de Ferro, e isso é tão somente um chamariz para arrecadar mais bilheteria, um jogo. A verdade é que um filme bem feito te deixa com mais dúvidas que certezas, e a graça toda de Guerra Civil é que é muito difícil tirar a razão de algum dos envolvidos. O que os move, o que os emociona e também nos emociona é a vontade de fazer o que é certo, mas o que é certo está além da discussão política e moral que o filme tenta articular, até de forma interessante, não profunda demais – o que é certo é o que faz com que nos sintamos bem, o que afasta nossos demônios interiores.

hungrygeeks.ph
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O filme eleva a níveis estratosféricos o que esperamos de filmes de super-heróis e baseados em quadrinhos porque faz com que os diálogos, a lenta aceleração da trama e a tensão criada entre os personagens se igualem em importância a elementos fantásticos, os efeitos, explosões e tudo mais. O que prevalece é o que o filme te faz sentir, no fim das contas e, no caso do meu filho e do meu – foi amor eterno a esses heróis que permeiam o nosso imaginário desde sempre. E a gente fica querendo que eles todos possam se dar bem de novo!

P.S.: Fique na sala para assistir às cenas na metade dos créditos e após. A Marvel já tem essa tradição, que é muito bacana, e as cenas nos preparam (ou nos deixam muito ansiosos) para o que virá.

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