Mr. Robot e a loucura (des)necessária

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Os responsáveis pela série americana Mr. Robot, exibida pela rede de USA de televisão, têm um entendimento tão claro sobre a cultura hacker que até a grafia dos títulos dos episódios se assemelha a códigos, o que nos faz sentir como se descobríssemos arquivos secretos ao assistirmos aos episódios pelo canal a cabo Space, aqui no Brasil, ou baixarmos os vídeos via torrent ou outra forma de pirataria. Eu sei, isso não deve ser incentivado, mas algo me diz que o envolvimento dos produtores da série no universo hacker foi tamanho que esse acesso ilegal é totalmente previsto e contabilizado – até um tantinho ironizado com “extensões” de arquivo constando no título, como ‘.mkv’, um formato de compactação de vídeo bastante comum em materiais pirateados.

Mr. Robot conta a história de Elliot, um jovem gênio da computação com um trabalho ordinário como técnico de Tecnologia da Informação em uma empresa que provê segurança informacional a empresas. O maior cliente da All Safe é a E-Corp, abreviação de Evil Corp, e aqui essas alcunhas são propositalmente óbvias: a ironia da All Safe, uma companhia que deveria manter absolutamente segura a maior e mais malévola corporação de todas, a Evil Corp, é que não está cumprindo lá muito bem o seu papel. E a crítica à maldade intrínseca de uma companhia que concentra praticamente todas as informações de crédito (e de dívidas) da população mundial está encerrada na denominação (demonização?) Evil = Má.

Aqui entra em cena o trabalho noturno de Elliot, que hackeia pessoas, descobrindo o que elas escondem por trás de sua felicidade facebookica, até encontrar atividades sórdidas que poderiam facilmente enquadrar esses malfeitores na prática de uma miríade de crimes. Mas a satisfação dele não está em meramente entregar essas pessoas à polícia e sim “apagá-las” da existência informacional, o que, atualmente, equivale a fazer o mesmo no mundo físico, obrigando esses monstros cotidianos, pedófilos, escravizadores, a começarem de novo sem nada, sem recursos para manter sua prática maldosa. E será que não é possível fazer o mesmo com a perversa E-Corp? É nessa empreitada que nosso (anti-)herói é convidado a entrar. Ou será que ele já estava nela havia mais tempo?

O preço da liberdade

Sucedendo esse plano de derrubar as corporações e, com elas, nossas dívidas, entra a primeira questão colocada pela série. Será que queremos mesmo viver livres e ter que correr atrás de nossos bens e realizações nós mesmos, ou estamos confortáveis em nossa escravidão paternal corporativista? Mr. Robot mostra o que poderia acontecer se essa revolução fosse, de certa forma, imposta, já que todos sofreriam as consequências do vácuo de poder que naturalmente se instalaria quando a mão forte corporativa que mantém o mundo como o conhecemos girando fosse decepada. Quando essa bola de gude espacial em que vivemos saísse do eixo e vagasse por aí.

O estado psicológico e emocional de Elliot reflete esse mesmo vácuo. Nunca tendo superado ou concatenado na própria cabeça a morte do pai e os maus tratos da mãe, vive em meio a alucinações, vícios, depressão, comportamento antissocial e uma confusão típica de quem perdeu as rédeas dos rumos da própria vida. “Controle é uma ilusão” é um dos motes da série. E parece que o único tratamento possível para Elliot, mais do que as sessões de psicoterapia que frequenta para, talvez, expurgar seus demônios mais profundos, é levar a cabo o plano de arrebentar com a E-Corp. É um instinto, mais que uma estratégia racional.

Mr-Robot

Muitos livros, peças, filmes, séries e toda sorte de produções artísticas já exploraram o fato de vivermos em uma sociedade doente, de nossa podridão estar exposta, a céu aberto, e que mesmo com alguém esfregando tudo isso em nossos narizes, preferimos continuar entorpecidos na normalidade cotidiana imposta, como um mecanismo de sobrevivência dificílimo de desativar. E é a primeira vez que uma série dá um “zoom” tão próximo em nossa doença. O impasse é que, se não agirmos agora, nenhuma alternativa extrema à perversa condição humana se concretizará: nem o sonho americano de prosperidade e estabilidade familiar, tampouco o futuro utópico de plena distribuição das riquezas que o planeta guarda. Ficaremos à mercê da inércia que nos leva para a extinção.

O X da questão

E a pergunta fundamental que essa peça artística ousada e sombria nos propõe é: loucura é não se enquadrar no que se convenciona como realidade – com todas as suas atrocidades, silenciosas ou não – ou a insanidade reside justamente em jogar o jogo do “mundo real”, alimentando com nossa energia vital as exatas atrocidades que sabemos que eventualmente vão nos destruir?

A série é sobre acelerar essa destruição, fazendo com que o caos reine antes de sua chegada natural, não quando o capitalismo e suas corporações perderem de vez o controle do sistema que mantém aparências de normalidade para continuar sugando todos os recursos do mundo – mas pela força daqueles que querem viver o caos nesse tempo, agora, e dar um reset em tudo. É sobre a realização de uma utopia anarquista, e tudo o que isso pode implicar. O que faríamos se tudo viesse abaixo e ninguém topasse assumir a liderança de um mundo órfão dos desmandos do dinheiro, fraturado e desesperado? O que você faria para sobreviver?

A segunda temporada de Mr. Robot está no ar pelo Space e a terceira já está confirmada pela emissora USA. Imperdível para quem sente falta de reflexões mais profundas no mundo do entretenimento.

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